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Proibido: adultos

Postado por Priscila Gontijo em 12/out/2017

Edvard Munch - Madona

O olhar pornográfico é do adulto. Quem suja a obra de arte é o olhar depravado da maioridade civil

Estudei em colégio de freiras.

Nos anos 90, esse colégio era considerado progressista.

Um dia, na aula de religião, irmã Salete levou um vídeo sobre aborto. Estávamos na quinta série, éramos meninas de 12 anos.

No vídeo, apareciam imagens de fetos no lixo, natimortos abandonados e o julgamento das famílias indignadas contra essas mulheres terríveis, mães sanguinolentas. Nunca me esqueci dessas imagens. Esse vídeo gerou reações tão nocivas às crianças, que algumas mães, impressionadas, foram até a coordenação da escola para entender o real motivo da exposição.

Edvard Munch - Madona

Algumas décadas se passaram.

E hoje essas imagens permanecem.

O que elas originaram?

Apenas repressão psicológica, medo, trauma. A religião católica, em sua exposição terrorista, conseguiu o grande feito: vinculou o sexo ao pecado.

Hoje, outubro de 2017, diversas manifestações artísticas são censuradas.

Assisti ao vídeo da criança – acompanhada e supervisionada por sua mãe e tendo o pai presente – tocando no artista nu durante uma performance no MAM.

O que vi?

Uma criança brincando.

Mexendo num corpo inerte e deslocando os pés e as mãos do artista.

Alguém gravou no celular.

E aqui entra a perversão.

Alguém gravou, postou em uma rede social e o vídeo viralizou na internet causando o caos e a indignação geral. Então, a mistificação ocorreu, ou seja, a liberação de uma ideia falsa, fora de contexto, gerando a histeria coletiva.

Quando você grava e posta a imagem de uma criança em um contexto específico e a desloca desse ambiente, há evidente deturpação. A exposição da criança é uma violência e marca o abuso.

Abuso é expor o outro a algo fora do controle, nesse caso, a rede social, pois você está vendendo uma imagem: de uma criança fora de um contexto.

Proibido deveria ser o adulto gravar, humilhar e ofender uma criança. Não o artista. Não a performance. Não a obra.

E, sim, o abusador que a retira de um âmbito para sua viabilização em outro totalmente alheio ao acontecimento. O olhar pornográfico é do adulto. Quem suja a obra de arte é o olhar depravado da maioridade civil.

Desde a inquisição, o delírio de uns prejudicou outros até a morte.

Deputados estaduais de Mato Grosso do Sul registraram, na quinta-feira (14 de setembro de 2017), um boletim de ocorrência contra uma artista plástica de Minas Gerais. Ela expõe obras no Museu de Arte Contemporânea (Marco) de Campo Grande. Para os parlamentares, os trabalhos fazem apologia à pedofilia. O título da obra que gerou polêmica é “Pedofilia”.

Depois do registro na polícia, o delegado Fábio Sampaio, da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), apreendeu o quadro. A coordenadora do Marco, Lúcia Montserrat, disse que foi intimada a depor sobre a exposição. A exposição chamada “Cadafalso” é da artista Alessandra Cunha. De acordo com a coordenadora Lúcia Montserrat, as obras trazem detalhes que falam do machismo, das agressões que as mulheres sofrem e promovem questionamentos em torno desse tema. “A arte não é uma coisa passiva, e sim de discussão, de reflexão, de enfrentamento da realidade.”

Qual foi o raciocínio que os deputados do Mato Grosso do SUL tiveram? Eles viram o título e, por indução, entenderam que a obra ERA pedofilia, que ao invés de QUESTIONAR, ela INCITAVA. Na verdade, a pintura é até uma obra ingênua, que remete à solidão e o abandono da criança quando se encontra numa situação de abuso.

Sobre o acontecido, Márcia Tiburi disse o seguinte em vídeo ao Jornalistas Livres:

“A imaginação dos deputados do Mato Grosso do Sul deve nos preocupar nesse momento, pois se trata de pessoas que veem desenvolvendo, como os inquisidores, não apenas uma ignorância profunda sobre a questão das artes, mas que parecem ter desenvolvido também alguma espécie de delírio, vendo coisas que não estão presentes na realidade, mas estão presentes apenas em suas mentes. Isso configuraria também algum grau de paranoia”.

E a criança que tocou nos pés do homem nu na performance? Como ela aparece no vídeo? Assustada? Temerosa? Hesitante?

Não. Ela estava tranquila, brincando.

Se não fosse a maldita gravação, talvez essa criança nem se lembrasse do caso.

Cresci num ambiente de artistas e intelectuais. Convivi com Henfil, Cazuza, Otto Lara Resende e outros intelectuais e artistas.

Assisti a peças recomendadas somente para adultos.

Assisti a shows onde não havia outras crianças e exposições de obras de arte.

Isso me trouxe algum trauma?

Não. Ao contrário, ampliaram a minha visão de mundo, me trouxeram alegrias infinitas e curiosidade em ampliar meu repertório artístico e intelectual.

A única coisa que me deixou marcas indeléveis foram: repressão e intimidação.

O que me violentou na infância não passa nem perto da arte, porque a arte é sempre atravessada pelo lúdico, pela linguagem, pela dimensão simbólica: seja no âmbito musical, performático, teatral ou pictórico, a arte instiga a olhar para a realidade de maneira mais plural.

O que violenta é o abuso do adulto.

E nesse sentido, o vídeo sobre aborto exibido em sala de aula pela freira terrorista deixou marcas muito mais profundas do que um show do Cazuza ou um espetáculo teatral que continha palavrões ou cenas de nudez.

Aliás, a exposição às artes só me instigou a fazer teatro, a ler, aprender, estudar e entrar em contato com os grandes autores.

Minha imaginação foi provocada pelos espetáculos teatrais, circenses, de dança e shows musicais que frequentei.

A criança apreende o ambiente, o clima, a atmosfera. Se a atmosfera é acolhedora e artística, a criança apreende o campo do simbólico e amplia o seu imaginário, o que só contribui para o alargamento de sua visão de mundo.

A arte sempre vai expandir a percepção do outro, mesmo que não se aprove o que se vê. Porque não é uma questão de aprovação, mas de tensão da complexidade do humano.

A arte é o espaço da contradição.

“A postura persecutória frente às artes é antiética e imoral, é uma postura que mitifica a má-fé. A arte é algo que faz bem às pessoas, porque melhora a sensibilidade, a inteligência, e desse modo melhora também o agir no mundo” –  completa Tiburi.

A criança tem olhos para aquilo que os adultos não têm.

Cada obra de arte é uma pergunta e não uma resposta. Por isso os reacionários não gostam de arte, porque não gostam de questionamentos. A arte é um convite para a reflexão. Já o sofrimento é fruto do controle e da violência impositiva.

MUROS, PALIMPSESTOS, PENTIMENTI

Nós não sabemos nem ler a cidade em que vivemos. Há um retorno da arte ao espaço público com ocupações de diversas manifestações artísticas. No entorno, há grafite, pixo, saraus de poesia em parques, células de diferentes lugares, enlaces de intervenção singulares nas cidades.

A cidade é também uma intervenção artística. É preciso aprender a ler essa narrativa. Há uma semelhança estética da poética contemporânea. Mesmo individuais, essas semelhanças estão refletidas nessa poética, nessas estratégias de reflexão sobre o mundo hoje. Os poetas estão lendo o contemporâneo.

Essas vozes em trânsito, vozes alheias, nascem do olhar com vigor. É preciso seriedade para fazer a crítica, para tocar em pontos em comum e diferentes da criação artística. Apreender onde a arte discute o momento presente.

“Nenhuma época é mais difícil do que o seu poema.” Marcos Siscar

É necessário ler a dor do momento presente.

Arte não é cópia, não é espelho. É uma força que nos leva para a ação e opera através daquilo que lhe é constitutivo: a própria linguagem. A atitude política na arte hoje é para dar consciência do sujeito e gerar mudança.

Os artistas contemporâneos tencionam e problematizam as questões do tempo presente. A desconstrução se realiza para uma nova construção.

Só nos resta aprender a lê-los, como uma criança faz.

Sem julgamento. Através do afeto.

“Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.”
(Otto Lara Resende)

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