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A perna direita de Moalisson

Postado por Marcelo Mendez em 10/out/2017

Dinamo de Mauá, Moalisson

Pequeno, rosto imberbe, magrinho. A camisa 11 do Dínamo bailava pelo seu corpo, era muito pano para aquele jovem menino

Conheci Moalisson em um dia de pouco sol.

Em um domingo cinza que se recusava categoricamente a ser de luz, fui enviado a Mauá para fazer um jogo pela Copa Amizade de Futebol de Várzea. Jogariam Dínamo de Mauá e Moleque Travesso, do Jardim Planalto de São Paulo, no campo do Juá.

Não era uma bela peleja.

Trombadas, discussões, um bocado de chutões e nada de haver algum encanto. O time do Moleque Travesso até abriu o placar em uma falha da zaga do Dínamo, e imaginei que aquilo pudesse mudar um pouco o panorama. Mudou.

Foi nesse momento que Moalisson apareceu.

Na hora do gol que o Dínamo, seu time, acabara de sofrer, ele foi até a sua zaga. Tomou a bola que estava em posse de seu zagueiro, vociferou broncas, deu força para o time e, com a bola debaixo do braço, seguiu para o meio-campo.
“Vamos pra cima desses caras e vamos virar o jogo. Aqui é Dínamo, porra!”

Olhei bem para o menino. Pequeno, rosto imberbe, magrinho. A camisa 11 do Dínamo bailava pelo seu corpo, era muito pano para aquele jovem menino. As meias meio arreadas, as chuteiras coloridas, o cabelo moicano transado e toda a picardia que a pouca idade lindamente traz aos homens. Deram a saída:
Moalisson pediu a bola e lhe deram. Como que um antigo malandro da velha Lapa carioca, o menino parou na frente do zagueiro botinudo, colocou as mãos na cintura e esperou o troncudo vir. Com a ginga de um milhão de gafieiras imortais, Moalisson lhe deu um drible… Mas não apenas um drible; aquilo foi uma esculhambação!

“Olééé!!” – Gritou a massa em êxtase. Instintivamente, um sorriso me veio ao rosto nesse momento. Era o começo do encanto chegando ao Juá.
O match seguiu. Era o Moleque Travesso tentando definir a coisa e Moalisson pedindo bola. A cada uma que chegava, seu marcador entrava pânico. Sabedor do triste destino de Pierrot perdido que os zagueiros marcadores têm, entristecia-o o fato de ver a pelota chegando ao pé daquele menino. Tentou dar-lhe umas pernadas…

Como que por magia, Moalisson fugia de todas. Rápido como os riffs de guitarra de um Alvin Lee em fúria, o menino de Mauá deitava o cabelo em cima do pobre marcador. Deu caneta, chapéu, drible da vaca, fez o diabo. Na única falta que o marcador conseguiu fazer, o menino falou:
“Num adianta, não, cê vai sair daqui tonto”.

E assim o fez. Em uma dessas jogadas, Moalisson conseguiu cavar um pênalti. Seu time empatou e a vaga foi decidida na marca da cal. E então Moalisson fez de novo, ajudou a classificar seu time e a festa se fez ali no Juá.

O tempo passou.

Depois dali, vi Moalisson entortar outro sem fim de zagueiros. Por alguns outros clubes que jogou, sempre brilhou. Sempre meteu gol, sempre bailou. Sempre que o vi, encheu de alegria esse pobre e velho cronista. Então veio um jogo no final de 2015 com seu Dínamo, pela Copa Lourencini, em Mauá, em dia lindamente ensolarado.

Em uma jogada mais forte, o menino chorou. Não era um cinema, não era cena, não era marra. A dor era verdadeira. Sem conseguir colocar o pé no chão, foi tirado de campo. Levado a um hospital, ficou constatada a fratura em sua perna direita. Nesse momento, o sol foi embora imediatamente. Nada mais teria o que fazer ali, o encanto saiu, se machucou.

Muito mais do que a fratura da perna, a contusão de Moalisson dói na Poesia. Por um tempo, ela ficará suspensa, mas vai se recuperar. Essa crônica, portanto não é um lamento, mas um canto de esperança. Moalisson vai sarar e o sorriso e o abuso voltará para os terrões da várzea em breve. Até lá, fica nossa torcida.

Volta menino, volta…

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