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Pedalada contra a dignidade

Postado por Claudio Arreguy em 19/out/2017

Moisés Ribeiro, Robinho

Acredito até que Robinho não refletisse sobre o seu significado – algo a que deve se ter entregado nas últimas horas. Mas foi ao encontro de outras ‘definições’ igualmente infelizes, que não encontram eco na realidade

“Você jogou com quem?”

Preconceituosa, humilhante, prepotente, a frase ainda reverbera em nossos ouvidos desde que Robinho a pronunciou na tentativa de se impor a Moisés Ribeiro, na derrota do Atlético-MG para a Chapecoense, quarta-feira, no Estádio Independência, em Belo Horizonte. Mais que mera e tosca tática de irritar o adversário e lhe forçar um cartão amarelo que, somado a um anterior, o levaria a receber também o vermelho, igualando os times em número de jogadores em campo, a infame soberba do veterano atacante constitui um retrato do próprio futebol brasileiro, perdido na história e na identidade de quem se considerava o país da bola. E também o país do futuro.

Robinho atirou no que viu, mas acertou também no que não viu – pior, carimbou em cheio quem não enxerga ser justamente a prepotência um dos traços de falta de caráter de nossa elite. Na terra do “sabe com quem está falando?”, “não deveria ter mexido comigo”, “tem que manter isso”, a dignidade acaba jogada para escanteio. Moisés Ribeiro é o brasileiro típico, que luta por espaço, busca se destacar na profissão que escolheu. A mesma em que atua Robinho, uma promessa de craque em seu fulminante início no Santos, cujos dribles e pedaladas o conduziram ao esquadrão galáctico do Real Madrid. Se não alcançou o status com que sonhava e que muita gente previa, é do jogo. Mas alcançou com justiça a condição de craque. Menos do que parecia, porém, mais do que a maioria de seus pares.

A frase, dita no calor da disputa no Horto, no momento em que o Galo empatava por 2 a 2 com a Chape e tinha um homem a menos em campo, devido à expulsão de Elias, foi uma canhestra tentativa de tirar também de campo um adversário. Acredito até que Robinho não refletisse sobre o seu significado – algo a que deve se ter entregado nas últimas horas. Mas foi ao encontro de outras “definições” igualmente infelizes, que não encontram eco na realidade. “O Brasil é o país do futebol!”. “Não temos que aprender nada com ninguém!”. “Tenho décadas de futebol, não tenho nada que aprender na escola!”. Autores não faltam para tais expressões. Aliás, eles mais que se repetem por aí: jogadores, treinadores, cartolas, torcedores, comentaristas esportivos…

Enquanto tais máximas vigoram, o futebol brasileiro sofre com vexames, que culminaram com o maior deles – um certo 7 a 1, na mesma cidade em que o craque milionário esnobou o aspirante à fama. Transportadas para os outros campos, são presentes em juízes dando carteiradas quando pegos em blitzes, dando voz de prisão a quem cumpria seu papel de fiscalizar infrações no trânsito; ou livrando da cadeia filhos irresponsáveis que provocam acidentes, às vezes até com morte. Num país em que a impunidade grassa, no qual a lei que deveria ser igual para todos é mais igual para alguns. Em que idiotas saindo das fraldas clamam pela volta da ditadura. Em que até ator pornô advoga em defesa da moral e dos bons costumes…

Robinho representou uma espécie de Brasil que saiu dos trilhos e retrocede em inúmeras áreas. Moisés Ribeiro simboliza o Brasil da maioria sem voz, cada vez com menos direitos, condenado à marginalidade e às migalhas moídas de comida quase vencida. A discussão no Independência, que deveria ser coisa de jogo, se transformou num embate entre universos que se distanciam cada vez mais. Como a bola que deixamos escapar pela lateral quando nos preparávamos para dominá-la.

E assim vamos caminhando… Infelizmente, para trás.

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