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Onde moram os monstros?

Postado por Priscila Gontijo em 08/fev/2018

artistas controversos

A biografia de um artista deve influir na apreciação de sua obra? Diante da avalanche de denúncias, o debate é reaberto

Eles criaram obras maravilhosas, mas são homens monstruosos.

Roman Polanski, Woody Allen, Bill Cosby, William Burroughs, Richard Wagner, Sid Vicious, V. S. Naipaul, John Galliano, Norman Mailer, Ezra Pound, Caravaggio, Floyd Mayweather, Pablo Picasso, Max Ernst, Lead Belly, Miles Davis, Phil Spector. E a lista não cessa de revelar novos nomes.

A questão que se impõe na atualidade é: vamos deixar de assistir à obra desses caras? A arte é fruto da linguagem ou do caráter do autor? Ou dos dois?

A elaboração estética e a síntese poética fascinante que me instiga hoje estão presentes na escrita das mulheres. Estou curiosa em relação às vozes que ainda não falaram, que foram oprimidas durante tanto tempo. Conheço bem a visão dos homens – principalmente em relação às mulheres –, a visão de mundo da perspectiva masculina não sofreu entraves, não foi massacrada e nem adulterada. Entrar em contato com novos atravessamentos, outros pontos de vista da história, sensações distintas das que já conhecemos, nos enriquece e alarga.

Dito isso, não vou deixar de assistir aos filmes de Woody Allen. Porque os filmes de Woody Allen me atravessam com pungência. Porque a obra de arte – e os filmes de Allen são obras de arte – nos salvam e nos perdem. As personagens femininas que ele cria são complexas, humanas e contraditórias. E isso me interessa enquanto artista. Seu humor trágico nos ampara e nos ajuda a enxergar a realidade com mais ternura.

Vejamos o caso de Nelson Rodrigues, autor brasileiro considerado reacionário e machista – e tem frases suas que realmente o são. Mas e a sua obra artística? Em seus textos dramáticos, as mulheres revelam as particularidades mais transcendentes e mais abjetas. Já as personagens masculinas, na maioria das vezes, são apenas joguetes nas mãos dessas mulheres extraordinárias. O que é Toninho diante de Zulmira? O que é Leleco diante de Celeste? O que é Pedro diante de Alaíde, Madame Clessi e Lúcia, a mulher de véu?

E as três diversas versões narradas por D. Guigui de Boca de Ouro?

O indivíduo não é uno – uma imagem idêntica para si e para os outros. Eu sou o que suponho ser, mas também o que pensa de mim o mundo à volta. Nessa fragmentação, dissocia-se a personalidade: a soma de tantos dados que se acumulam. Não há verdade indiscutível e a personagem se forja pelas facetas diversas.

Nelson Rodrigues vai além, no jogo de subjetividade delirante. A personagem, ao lado do substrato próprio, talvez inatingível para os outros (e para si mesma), é sem dúvida também o que pensam dela.

Apenas esse pensamento não se mostra invariável no tempo e flutua de acordo com o estado emocional do interlocutor. D. Guigui mentiu alguma vez? Mentiu sempre? Ou viu a realidade de formas diferentes, segundo o sentimento que a animava? Todos sabemos que as circunstâncias nos levam a condenar ou absolver alguém, dependendo do vínculo afetivo. O argumento que desculpa o ato de um amigo pode ser semelhante ao que agrava o de um inimigo, sem nenhuma falsidade consciente. Somos presas, em grande parte, da subjetividade. Para Nelson, então, agredido pela realidade, a imagem subjetiva atingia um radicalismo absoluto. – escreveu Sábato Magaldi sobre a peça “Boca de Ouro”.

A adúltera é mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela – escreveu Nelson.

As personagens femininas criadas pelo dramaturgo brasileiro são paradoxais, como são todos os seres humanos dentro de suas potencialidades. Em “O beijo no asfalto”, Selminha enfrenta delegados corruptos e jornalistas homicidas para defender a ação do marido que cede ao último apelo de um atropelado e o beija no asfalto. É esse enfrentamento da personagem feminina, essa coragem diante dos argumentos sórdidos da publicidade jornalística, que faz do dramaturgo um criador de personagens tão humanas.

Vivenciamos hoje um discurso polarizado e pouco complexo. A condição humana é monstruosa. E os personagens não são a voz do autor, teatro não é palanque, um romance não é uma bandeira, a personagem existe para revelar a nossa monstruosidade e não o nosso bom mocismo.

Como mulher, tenho absoluta consciência de que as denúncias atuais são um grande avanço social. Um produtor como Harvey Weinstein precisa ser desmascarado e punido pelos seus crimes – que não foram poucos. Mas cada caso precisa ser analisado dentro de sua singularidade.

Não é de hoje que os homens vivem em um mundo recheado de privilégios e regalias. Agora, a coisa mudou. Graças a Dionísio! E precisamos continuar denunciando os agressores. Eles precisam ser punidos, sem dúvida alguma. A partir de agora, os homens têm que se conscientizar de que não existe mais tolerância a nenhuma espécie de abuso. Acabou.

Quando menciono Nelson Rodrigues, pretendo refletir sobre a transcendência de sua linguagem e a habilidade em revelar nossos anseios mais profundos. A arte nasce desse atravessamento. Dostoievski não era o porta voz de suas personagens, elas não são escravos mudos, são polifônicas, não terminam, são vozes emancipadas do autor. Suas personagens são livres para errar, ceder, cair e naufragar. A arte é o espaço da liberdade. E hoje, percebo uma tremenda confusão em julgar a obra analisando as crenças, a posição política e as idiossincrasias do autor.  Ninguém sairá ileso, porque o ser humano não é uma polaridade entre bem e mal.

Nelson não foi um abusador – ao menos, não há relatos sobre isso –, mas não acreditava que existisse tortura durante a ditadura militar no Brasil. E só acreditou quando viu o seu filho Nelsinho voltar da prisão. Não é terrível essa descrença diante do óbvio ululante? É quase criminoso, retrucam alguns, principalmente quem viveu na carne e na alma os anos de chumbo.

Vamos deixar de ler e montar as suas peças?

Deixar de ler um autor que inaugurou o teatro moderno brasileiro é optar pela burrice. E optar pela burrice é um ato tão terrível e criminoso quanto o homicídio.

O artista é sempre monstruoso. Egoísta em sua caverna, concentrado em seu ofício, um obcecado por excelência. Ele se fecha, emudece, não quer ouvir o choro da criança que o aguarda do outro lado da porta. Eu, particularmente, não quero. Não posso. Sou um monstro por causa disso? De certa maneira, sim. O mundo pode desabar sobre a minha cabeça enquanto escrevo, mas não abro a porta! Isso é de um egoísmo atroz. É violento.

Sim, não tive filhos, não sinto a culpa inexorável por uma possível ausência. Mas não ter filhos também é uma escolha que não exclui consequências. É uma opção consciente. Não me vejo – tenho essa limitação – criando filho e escrevendo para teatro, cinema e literatura.

Seremos todos julgados. Somos monstros.

A obra de arte exige certa monstruosidade. Terminar um livro é abdicar de tudo e de todos. Terminar é uma ação monstruosa.

Voltemos à pergunta inicial:

A biografia de um artista deve influir na apreciação de sua obra? Picasso era terrível, um avô funesto, como revelou sua neta alguns anos atrás. Devemos renegar as obras de Picasso para queimar no fogo do inferno?

Existe uma diferença enorme entre o moralismo e as denúncias de agressão.

A arte não obedece a uma moral. E o autor? Sinceramente, não me interessa a vida privada de um autor, esse é o ponto. Se a sua obra é fundamental para alargar a existência humana, para inaugurar caminhos, romper fronteiras e revelar a poesia do instante, então, escolho a obra.

Isso não exclui a punição do agressor. Precisamos ouvir os relatos das vítimas e reagir com firmeza.

Acredito que a conquista maior da nossa época é a inclusão da minoria no espaço público. É criar alternativas de emancipação. A inserção dos que foram banidos. Das vozes renegadas durante tanto tempo. Então, as escolas e universidades precisam incluir urgentemente em seu currículo as obras de autoras mulheres, negras, LGBTs. A diferença está em escutar o que essas vozes têm a dizer.

Hoje em dia, leio mais livros escritos por mulheres, mas não vou deixar de ler os autores homens ou deixar de assistir aos filmes de samurais da linguagem audiovisual porque não se comportaram devidamente. Os homens precisam se transformar e ouvir o que temos a dizer. Precisam aceitar a mudança. Mas a verdadeira obra artística ultrapassa gêneros porque ela é, em sua essência, humana.

E não é isso o que importa no final das contas?

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