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O torcedor não era selvagem e os jogadores do Palmeiras tinham vergonha

Postado por Roberto Salim em 13/nov/2017

Palmeiras

“Os jogadores do Palmeiras eram também seres humanos normais, que andavam pelas ruas, conversavam, caminhavam… não se escondiam atrás de carros luxuosíssimos, nem existia o insulfilm que escurece os vidros dos automóveis e não deixa ver quem está dentro”

A manifestação da torcida do Palmeiras antes do jogo contra o Flamengo me fez viajar no tempo… voltar 50 anos na folhinha da minha vida e acordar na Rua Caiuby, que fica mais ou menos a uns 6 quarteirões do portão de entrada do Parque Antártica, na antiga Rua Turiassu. Naquele tempo, os jogadores alviverdes desciam a pé para os treinamentos ou partidas. A criançada e a torcida do Bairro das Perdizes, da Vila Pompeia e da Água Branca viam seus ídolos caminhando como qualquer ser humano normal. E o máximo que pediam a seus craques era um gol, uma vitória…

Jamais atacariam o ônibus como a violenta torcida de hoje faz.

Quem chamaria um Ademir da Guia de pipoqueiro?

Quem iria pendurar saquinhos com pamonha e insinuar que um César Maluco era feito de milho…?

Quem iria pedir para mandarem embora um Valdemar Carabina?

Quem chamaria de Banana um Adhemar Pantera?

Não, a torcida daquela época não era violenta como a de hoje.

Nem ingrata.

O torcedor do Palmeiras amava seus ídolos.

Tinha devoção por um Dudu, um Waldir Joaquim de Moraes.

Mesmo porque, além de grandes jogadores, eram também seres humanos normais, que andavam pelas ruas, conversavam, caminhavam… não se escondiam atrás de carros luxuosíssimos, nem existia o insulfilm que escurece os vidros dos automóveis e não deixa ver quem está dentro.

Hoje eu moro no mesmo bairro da minha infância e não sei onde residem os craques atuais.

Mas do meu tempo sei que o “Peito de Aço” Vavá saía da rua Aimberê, altura do número 800, para treinar diariamente no Parque Antártica. Que o zagueiro Aldemar – que marcava Pelé como ninguém – morava na Rua Caraíbas e descia direto para o clube. Que o goleiro Maidana morava no Edifício Falstaff na esquina da Caiuby com a Apinagés, bem na esquina em que um dia fomos pedir para ele umas camisas velhas para usar no nosso time chamado CGP (Clube os Garotos das Perdizes).

O peruano Gallardo morava na Caiuby e batia bola com a gente no meio da rua, em uma época em que só interrompíamos o “treino” quando passava o ônibus que iniciava sua longa viagem em direção ao Aeroporto de Congonhas.

“Quando a gente perdia um jogo, eu nem ia à feira”, me contou um dia, quando já morava em Uberaba, o grande Djalma Santos, bicampeão do mundo de 58 e 1962 e, com certeza, o maior lateral-direito que o Palmeiras já teve.

“E nas segundas-feiras, quando a gente perdia no fim-de- semana, eu pensava como iria até o Palmeiras… mas não era de medo da torcida, era de vergonha mesmo de ter perdido o jogo”, dizia o velho Djalma, com a sinceridade e o bom-humor de sempre.

O seu Waldir Joaquim de Moraes, o goleiro Waldir, às vezes me contava nos almoços que tínhamos vez ou outra no “Sampa”, no comecinho da Avenida Doutor Arnaldo, que eram outros tempos mesmo. O jogador tinha afeto e uma ligação inacreditável com o clube. Seu Waldir foi mais de 10 anos titular do alviverde. Não precisa torcedor algum cobrar o time, jogar pipoca nos craques, xingar ou apedrejar o ônibus.

“Nós mesmos nos sentíamos mal, mas não havia medo da torcida.”

Os craques de hoje não precisam se preocupar.

Por trás dos vidros escuros de seus carros, torcedor nenhum os identifica.

Outra coisa: jogador nenhum fica mais de dois anos no clube, não cria identificação alguma.

Os xingados de domingo diante do Centro de Treinamento do Palmeiras, amanhã ou depois estarão jogando em outro estado, outra cidade, outro país.

Torcedor algum de hoje vai poder contar, como eu, que levou o “Livro de Ouro” de seu time de criança para o Djalma Santos assinar. Lembro como se fosse hoje: fomos até a esquina da Rua Caetés com a João Ramalho, tocamos a campainha e, quando a porta se abriu, surgiu o craque Djalma Santos. Explicamos que queríamos sua assinatura e uma colaboração para comprar nosso jogo de camisas.

Lembro como se fosse hoje que ele assinou e nos deu uma nota de 200 cruzeiros.

O Palmeiras daquela época era mesmo diferente.

Era a Academia de Futebol do técnico Dom Ernesto Filpo Nunes.

Já o time de hoje…

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