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O tempo voa até para os meninos do boxe ou Éder Jofre e Leo lutando pela vida!

Postado por Roberto Salim em 23/jan/2018

Éder Jofre, Leo Weiss

“Passos lentos, apoiado no braço de seus acompanhantes, surge ao lado do ringue o maior lutador da história do pugilismo brasileiro e uma lenda do boxe mundial: o Galo de Ouro, herói da minha juventude, o inigualável Éder Jofre”

O menino Leo Weiss chegou ao bairro de São Matheus já uniformizado. Roupa vermelha da academia The Oliveira Brothers. Só não estava com as luvas de boxe calçadas. Chegou como um garoto qualquer de 13 anos, ao lado do pai e da mãe. Só que o pequeno Leo fazia parte do espetáculo daquela tarde de sábado na periferia de São Paulo.

Um evento de boxe promovido por Servílio de Oliveira – nosso medalhista olímpico e um pugilista com carreira incrível: lutou 20 vezes como profissional, ganhou as 20. E só parou porque teve um problema sério na vista, quando já era campeão sul-americano dos moscas e desafiante ao título mundial.

“Foi no dia 3 de dezembro de 1971, contra o mexicano Tony Moreno, que acertou uma cabeçada em meu supercílio.”

Mas isso foi no final da década de 60, começo dos anos 70. Era inacreditável ver Servílio lutar sem enxergar com uma vista. E ele subiu aos ringues mais cinco vezes nessa condição. Só desistiu quando sua luta contra o chileno Martin Vargas pelo título sul-americano foi cancelada pelo médico do combate, poucas horas antes de sua realização em Santiago.

“Foi em março de 1978… disseram que com aquele problema da vista não poderia subir ao ringue” – não esquece Servílio.

A luta seria transmitida pela TV Tupi.

Acreditem: faz exatamente 40 anos.

Eu trabalhava lá: e lembro como se fosse hoje que ligamos por telefone para o hotel em Santiago. Ele deu uma entrevista para o programa de meio-dia da TV Tupi. Quem apresentava era o grande Walter Abrahão, que inclusive transmitiria a luta.

No meio da tarde, chegou a notícia de que a luta não seria mais realizada.

Mas voltemos a São Matheus.

Serão várias lutas de jovens promessas.

Tudo organizado com esmero por Servílio e seu filho Pitu, que não deu muito certo como lutador, mas é um técnico excelente. Seu melhor pugilista é o seu próprio filho: o Bolinha, neto de Servílio.

Ele tem 16 anos e já está na Seleção Brasileira de Cadetes.

“Este ano quero ir à Olimpíada da Juventude, mas sonho mesmo com a Olimpíada de Tóquio, em 2020” – fala Bolinha, que está no terceiro colegial e tem 42 lutas, com apenas 4 derrotas. “Cresci ouvindo as histórias do meu avô.”

Nesse sábado, Bolinha não vai lutar.

O teatro está lotado.

Mais de 500 pessoas estão presentes.

Na segunda luta, quem vai subir ao ringue?

Sim: o menino Leonardo Weiss, aquele do uniforme vermelho. Seu adversário é Gabriel Marques, que vem vestido de azul.

São dois pequenos moscas-ligeiros, com seus 40 quilos de peso e muita disposição.

O papai Rodrigo acompanha atento ao lado do ringue.

Ele e a esposa Sandra abandonaram tudo em Florianópolis para seguir o sonho do menino.

“Eu trabalho com telecomunicações, mas estou há dois anos fazendo bico para me dedicar à carreira do Leo. Adoro boxe. Fiz kung-fu, mas sempre gostei de pugilismo. Quando o Leo nasceu, eu punha as lutas do Mike Tyson para ele assistir. Um dia ele me disse que não aguentava mais ver aquilo. Então comprei os filmes do Rocky, o Lutador. Enfim, ele entrou para o boxe.”

A mãe não queria que ele lutasse, mas agora já se acostumou.

Afinal, esta de hoje é sua luta de número 37.

Já lutou em vários estados, já foi campeão na Argentina e São Paulo.

A luta em São Matheus foi bem movimentada.

Equilibrada.

No fim, Gabriel Marques venceu.

Faz parte do jogo. Afinal, foi apenas a quinta derrota de Leo.

Derrota maior foi a perda da ajuda de custo de 300 Reais.

O aluguel da casa em São Paulo também chegou ao fim.

E o trio voltou para Floripa na tarde de segunda-feira. A luta pela sobrevivência é maior.

“Mas eu não vou desistir de ver meu filho na Olimpíada de 2024.”

Lutadores e seus pais são assim.

Difícil jogar a toalha.

Difícil sair de perto dos ringues da vida.

Por exemplo, aos 81 anos, quem chega ao teatro em São Matheus exatamente às 17h40, quando está sendo disputada a quinta luta do programa?

Passos lentos, apoiado no braço de seus acompanhantes, surge ao lado do ringue o maior lutador da história do pugilismo brasileiro e uma lenda do boxe mundial: o Galo de Ouro, herói da minha juventude, o inigualável Éder Jofre.

Fez 81 lutas, venceu 52 por nocaute, perdeu apenas duas, para o japonês Harada.

Vejo que vem trêmulo.
Mas arrepia ouvir o público gritar o seu nome e ele, como nos velhos tempos, levantar os braços e tentar acompanhar o ritmo das vozes:

“Éder… Éder… Éder.”

O campeão chora.

Levanta os punhos.

E enxuga lágrimas.

A vida é ingrata. Ou é simplesmente assim mesmo: o ser humano que esbanjou vitalidade, que parecia indestrutível, que derrubou mais de 50 adversários é agora um ser que flutua em sua fama.

A luta é reiniciada sobre o ringue.

Mas as pessoas vão cercar Éder Jofre, que é levado à primeira fileira do teatro.

Senta-se.

Chora, agradece, tira fotos, faz pose e ouve elogios.

Então, eu levantei também e fui sentar no palco.

Bem em frente da primeira fileira.

De cara para o meu velho ídolo.

As pessoas faziam fila para falar com ele.

Para encostar a mão em seu ombro.

Para beijá-lo.

Para chorar junto com ele.

Emoção à flor da pele.

Éder Jofre era ídolo de todos ali no teatro do CEU de São Matheus.

Velhos lutadores, velhos fãs.

Jovens admiradores.

E eu olhando tudo.

De vez em quando, ele lançava um olhar perdido para o meu lado.

E eu pensava:

“Será que o Galo de Ouro está me reconhecendo?”

Impossível.

Mas na minha mente, diante de sua mão direita que tremia.

Diante de seu olhar perdido.

Diante de seu choro a cada foto, a cada abraço.

Bem, eu ia me lembrando de tudo que tinha passado com o meu ídolo.

Lembrei as lutas que escutava no rádio.

Das lutas que vi na televisão, principalmente do dia em que lutou com o cubano José Legra. Meu pai sofria do coração. Era fanático por Éder Jofre e eu tive que prendê-lo no quarto para não lutar junto com o nosso campeão e ter um infarto.

Lembro as primeiras matérias que fiz com Éder.

Da emoção em minha primeira saída para reportagem, no “Jornal da Tarde”. Justo no dia em que seu pai Kid Jofre faleceu e me mandaram para a Academia de Boxe do São Paulo Futebol Clube, na Rua Santa Ifigênia. Lá chegando, encontrei o Tobs, velho lutador. Estava inconsolável. Era auxiliar de Kid Jofre. Tinha acabado de fazer um samba em homenagem ao velho parceiro.

Lembro o dia em que Éder me contou com detalhes do seu momento de glória, quando conquistou a vitória sobre Joe Medel, que abriu o caminho para o título mundial. Lembro até agora que era uma entrevista para a “Manchete Esportiva”.

O ano da entrevista: 1977.

“Fui para o córner exausto, não aguentava mais. Falei para o meu pai que ia desistir e então ele disse: ‘Tudo bem, pode desistir, mas o que você vai dizer para a sua mãe, que veio do Brasil até aqui só para te ver ganhar?’”

Eder não aguentava mais, mas não podia decepcionar sua mãe.

Voltou ao ringue para o décimo assalto e derrubou o adversário em Los Angeles.

Detalhe: a mãe dele não tinha ido para os Estados Unidos.

Foi um golpe psicológico do Kid Jofre.

Éder contava detalhes de sua vida como quem fala de uma vida comum, como se não fosse um ídolo do país, que surgiu na mesma época de Pelé, Maria Esther Bueno, Biriba, Garrincha. Era um Brasil esperançoso: o país dos 50 anos em cinco.

Quando já estava para encerrar a carreira, fez uma luta fantástica contra o mexicano Otávio “Famoso” Gomes, no Ibirapuera. Mais de 10 mil pessoas superlotaram o ginásio. Para essa luta, Éder se preparou como nunca. Já tinha 38 anos, não era mais um menino.

Eu trabalhava na “Folha de São Paulo”.

Cobri o seu último treino na academia do DEFE, na Rua Germaine Bouchard. Seu técnico era Waldemar Zumbano. Ver Éder treinar era uma aula de boxe: ele dava todos os tipos de golpes possíveis. Tinha uma movimentação perfeita em cima do ringue – aliás, praticamente nasceu dentro de uma academia.

E meu pai sempre dizia, quando parece que o Éder está encurralado no córner, quando parece que está apanhando…

Bem, aí é fatal para o adversário: ele dá um contragolpe e põe o oponente na lona.

“Bate embaixo, salame”, gritava seu pai nos bons tempos.

E Éder batia e nocauteava seus adversários.

Era assim mesmo, mas com Famoso Gomes foi uma luta dura.

O mexicano era bem mais jovem, estava preparado e mostrou que não tinha medo, quando após seu último treino, também no DEFE, foi buscar no vestiário um violão: e cantou La Bamba. Só eu estava lá de repórter. Fiz matéria exclusiva.

No ringue no dia seguinte, o Ibirapuera vibrou com a vitória de Éder, por pontos.

Luta dura.

Tão dura, que Éder teve a sabedoria de encerrar ali a carreira vitoriosa, incomparável. Um cartel que o coloca no olimpo dos lutadores de boxe do mundo inteiro.

Depois, já na ESPN Brasil, fiz matéria dos 70 anos de Éder Jofre.

Chegou a uma academia na Alameda Casa Branca correndo.

Fez cordas.

Fez sombra.

Fez luvas.

Parecia um menino. De 70 primaveras.

Deu entrevista, contou lutas com detalhes.

No fim, quando já tínhamos desarmado todo o equipamento, ele me pegou num canto. Olhou bem nos meus olhos e falou: ”Parece que eu estou bem, não é?”

Falei:

“Claro, você é um menino”.

E ele sério me disse:

“Mas sabe, ando preocupado. Tem horas em que esqueço as coisas”.

E olhou entristecido. Logo estava brincando novamente, porque Éder estava sempre fazendo piada.

Mas agora, neste sábado de janeiro aqui em São Matheus, o olhar dele cruza com o meu e está perdido no tempo.

O menino catarinense Leo Weiss pede licença para tirar uma foto.

Éder esboça um sorriso.

A mão direita para de tremer. O campeão ergue os punhos.

Faz pose igual à do menino que ele foi um dia.

Leo está com o olho direito roxo, mas está orgulhoso.

É a terceira vez que ele encontra o Galo de Ouro.

Foto batida pelo papai Rodrigo, respeitosamente, ele se levanta.

Éder volta a ter a mão direita trêmula. E chora.

O menino diz:

“Eu acho que ele já me conhece pai!”

Será?

Imagem: arquivo pessoal família Weiss
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