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O dia em que fomos comprar o Campeonato Paulista

Postado por Roberto Salim em 15/nov/2017

O dia que fomos comprar o Campeonato Paulista

“O Júlio era mais gorducho que eu, tinha barba. Seria um empresário cubano na nossa “palhaçada”. Um milionário disposto a acabar com o monopólio das transmissões esportivas na nossa capital”

A notícia bomba de que a Rede Globo pode estar envolvida em caso de corrupção no futebol mexeu com a minha cabeça. As denúncias do argentino Alejandro Burzaco no tribunal dos Estados Unidos falam em propina para a compra dos direitos de transmissão de jogos. Fala que o representante da Globo era Marcelo Campos Pinto, acusa José Maria Marin, Ricardo Teixeira e Marco Polo del Nero do recebimento de pagamento ilícito.

Mas por que fiquei pensativo depois de ter assistido ao Jornal Nacional desta terça-feira, em que o delator do caso Fifa acusou a Globo?

Porque vou confessar aqui: teve um dia em que eu e meu amigo Helvídio Mattos fomos até o prédio da Federação Paulista de Futebol, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, para subornar dirigentes.

Sim, caros leitores, tenho esse peso na minha consciência de repórter.

Vou contar como tudo aconteceu, e que Deus me perdoe!

Acho que era o ano de 1985 e eu trabalhava com o Helvídio na TV Manchete de São Paulo, que tinha sua sede na Rua Bruxelas. Nossa redação era na cozinha de um sobrado. Tinha até um quintalzinho onde jogávamos bola nas horas de folga.

Pois bem, fazíamos o programa Manchete Esportiva, que entrava no ar exatamente ao meio-dia.

Era uma correria só … fazer o programa diariamente era dose para leão. E naquela manhã, por volta de 10 horas, o Helvídio recebeu um telefonema do Rio de Janeiro. Era o nosso chefe e narrador esportivo Alberto Leo.

“Hoje tem reunião na Federação Paulista de Futebol para a compra de transmissão do Campeonato Paulista”, foi dizendo o Alberto Leo. “Eu iria participar da reunião, mas não chegarei a tempo aí em São Paulo, então, quero que você me represente e faça uma proposta de compra.”

O Helvídio ficou branco. Mais branco, quero dizer.

Desligou o telefone e me disse:

“Eu não vou”.

“Onde você não vai, Helvídio?”

“Na Federação.”

Então, ele me contou o que o Alberto Leo tinha falado.

Eu pensei, pensei e não me veio nenhuma solução.

E o Helvídio disse: “Eu só vou se você for comigo”.

Aí quem ficou branco fui eu.

“Como assim? Participar da reunião de compra de direitos de transmissão?”

Do jeito que nós dois somos totalmente desligados dessa história de grana, só daríamos vexame na Federação, no meio de tanta cobra criada.

Tínhamos que ligar para o Rio e arrumar uma boa desculpa para dar ao Alberto Leo e nos livrarmos daquela tarefa insana.

Papo vai, papo vem. Não tivemos coragem de ligar para o Alberto Leo.

E o assunto virou gozação.

Comigo e com o Helvídio, o assunto, por mais sério e grave, sempre acabava numa grande brincadeira.

E tivemos uma ideia: se era para participar da tal reunião, nós iríamos em grande estilo.

E bolamos todo um ritual, uma encenação.

Levaríamos conosco uma figura que nenhum dos diretores esportivos dos canais paulistas conhecia: era o Júlio, da pauta. O Júlio era mais gorducho que eu, tinha barba. Seria um empresário cubano na nossa “palhaçada”. Um milionário disposto a acabar com o monopólio das transmissões esportivas na nossa capital.

Para completar o figurino, arrumamos um belo terno para o Júlio. E charutos, pois era um empresário cubano.

E o toque final: o “cubano” chegaria ao prédio da Federação com um charutão na boca, carregando uma mala enorme e pesada.

Claro: cheia de dinheiro… na verdade, papel picado.

Acreditem: assim foi feito.

Pusemos o programa no ar e saímos com o carro da Manchete exatamente às 12h30 com destino à FPF.

A chegada do nosso trio causou espanto.

Admiração e dúvidas na antessala da reunião.

Fomos cumprimentados. Apresentamos o diretor financeiro cubano.

E vimos a cara de espanto de todos os que olhavam para a mala de dinheiro.

Acho que nosso plano surtiu efeito, pois, sem que nos déssemos conta, entre um café e outro, todos sumiram, fecharam as portas da sala. E quando percebemos, a reunião já tinha acabado. Os direitos de transmissão vendidos. E a Rede Manchete solenemente ignorada.

Ainda bem, né?!

Vai que o argentino Burzaco estivesse no meio daquela turma toda. E resolvesse nos denunciar depois de tantos anos ao tribunal norte-americano em Nova York.

O que é que a gente ia dizer em casa, hein, Helvídio?

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