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Hamlet no Lavínea e o blues do picolé de framboesa

Postado por Marcelo Mendez em 05/dez/2017

Futebol de varzea

“A poesia do futebol de várzea mora na improbabilidade, no imprevisto, no insólito. No que há de mais corriqueiro aos olhos nus da normatividade das rotinas diárias, está o que na várzea inevitavelmente acaba se tornando épico”

Sim, o Cronista está feliz.

Com todos os raios multicoloridos de um domingo em fúria e seu calor absolutamente dantesco, aqui estou eu, poeta das letras ludopédicas, buscador renitente de um verso lírico, sagaz caçador de poemas improváveis, vivendo um daqueles amores que redimem o homem de todas as besteiras que ele faz.

Um instante na vida em que nada parece incomodar. O pernilongo, a conta de luz, o entregador de gás que demora, a pia que entope, o cachorro que late, o esquilo que corre a cerca… Nada atrapalha e tudo vira verso. Toda a Poesia do mundo reina no olhar de um homem em meio a umas de amor.

Pois é…

Munido de todo esse sentimento, parti ao Jardim Lavínia em São Bernardo para cobrir a Copa Regional. Me foi dito que ali aconteceria algo parecido com uma pré temporada dos times de várzea. Uma besteira, copiada dos clubes profissionais, de que, decerto em outros tempos que não estes de amor, eu reclamaria horrores, rogaria todas as pragas do universo contra a pauta e arrumaria boas dores de cabeça ao bom Editor.

No entanto, sabedor das coisas da várzea que sou, bem imaginei que dali não sairiam grandes coisas. Afinal, depois das festanças do término dos principais campeonatos da várzea do ABC, calor de novembro, domingo de manhã, enfim; ninguém ali correu muito.

O jogo era entre Jardim do Ipê e Águia Branca. Sob um sol intenso de 35 graus, em uma grama sintética que jogava isso para uns 40 graus sem dó, as duas equipes duelavam bravamente em preguiça de fazer inveja a Dorival Caymmi. Uma leseira para ser curtida ao som de Bob Marley a cantar seu hino Catch a fire. Uma canseira tamanha, que contaminava a todos ali na cancha.

Dona Raquel, 59 anos, moradora do Ipê, ali a meu lado, se queixava do preço do sorvete de picolé e do serviço apresentado pelo moço que suava em bicas para ganhar seus trocados. “Eu até queria comprar, mas olha lá onde ele tá… Lá do outro lado. Não vou dar essa volta debaixo de sol.”

Munido do mesmo drama, Seu Salvador, 61 anos, morador do Bairro Assunção, se apertando em uma pequena sombra ao lado do campo, relatava ao Cronista sua decisão:

“Eu queria até tomar um café, afinal, são 11 horas. Mas com esse calorão, sabe como é… Uma cervejinha é mais de Deus né…”

Não querendo atrapalhar a sagração do simpático senhor, nada disse, apenas sorri. Tomando como um consentimento de causa, lá foi Seu Salvador em rumo da cerveja santa a refrescar suas quenturas.

Segui ali.

Príncipe cansado como um Hamlet resoluto, por detrás de meus óculos escuros, permaneci atento a qualquer outro réquiem de encanto que por ali reinasse. Vez por outra, dava uma olhadela no campo. Via por lá uns meninos tentando entender o porquê de seus suores em bicas, mas de imediato entendi que ali não estava o que eu procurava. Não seria da cancha que sairia o verso. Por vezes é assim.

A poesia do futebol de várzea mora na improbabilidade, no imprevisto, no insólito. No que há de mais corriqueiro aos olhos nus da normatividade das rotinas diárias, está o que na várzea inevitavelmente acaba se tornando épico. Sempre esta lá. Toda hora tem algo a se tornar imortal por aqueles cantos. Cabe ao Cronista ficar atento para ver. E se as vezes não ver, bem…

Dei a volta no campo para Dona Raquel em busca dos picolés. Comprei dois de Framboesa…

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