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Dona Arinda era melhor que qualquer farmácia

Postado por Roberto Salim em 11/jan/2018

Benzedeira

“Ia falando suas palavras mágicas. E eu notei quando ela sorriu. Graças a Deus, não era nada grave!”

Tenho 64 anos e vivo na mesma região desde que nasci.

Nesta quinta-feira, às quatro e meia da tarde, saí do prédio onde moro há mais de quatro décadas, atravessei a rua e entrei na nova farmácia que abriram. Além de hamburgueria, pizzaria e barzinho, a minha querida Perdizes inaugura uma drogaria atrás da outra. Antes que a chuva começasse forte, entrei no novo estabelecimento. Pensei: loja nova, preços baratos ou mais baratos, porque não tem remédio em liquidação. E um dos seis que preciso tomar custa em média 5 reais cada comprimido.

Conversa vai, conversa vem, e percebi que entraria pelo cano: a caixinha sairia por apenas 342 reais, mais caro do que em qualquer outras das farmácias do pedaço. Deu um aperto no velho e cansado coração.

Na mesma hora, me lembrei das antigas farmácias do seu Toninho, na Rua Apinagés. Do seu Oscar, na João Ramalho. Do seu Waldemar, ali na bifurcação da Turiaçu. Na verdade, eram verdadeiros doutores: lembro a fila que ficava no seu Waldemar. Ele curava tudo. Tinha feito até o segundo ano de Medicina.

Lembro o Toninho, que tinha remédio para tudo.

E do seu Oscar, no dia em que meu sobrinho bateu a cabeça e eu corri com ele Rua Caiowas abaixo para segurá-lo enquanto o “doutor” Oscar dava os pontos. E tinha também a dona Etelvina parteira, com sua roupa imaculadamente branca: entrava e saía dos partos sem uma mancha de sangue sequer em seu vestuário santo.

São outros tempos.

Foram outros tempos.

Pensava nisso quando parei diante da caixa para pagar o outro remédio que comprei na nova farmácia.

Toda envidraçada, dava vista para a subidinha da Rua Caiuby.

A esquina da Caiuby com a Caiowas.

E então viajei quarenta e sete anos no tempo.

Me vi jogando bola na esquina que tinha uma trave e um pé de pitanga.

Depois me vi jogando na rua que virava campinho aos sábados.

Púnhamos traves na terra e vestíamos a camisa do Vasquinho. Enormes camisas já embranquecidas pelo uso, que colocávamos orgulhosos. Tinham sido do Vasco de verdade e compradas por um pai – não me lembro qual – quando o time carioca se apresentou no Pacaembu.

Eu era o número 6.

A gente calçava chuteira.

Na terra.

Claro que virei o pé.

E o pé virou uma bola.

Fui levado para casa no colo do meu pai.

Ele me colocou no sofá alaranjado da sala.

E logo chamaram a dona Arinda.

Ela veio apressada. Com a agulha, linha e um pedaço de pano nas mãos.

Começou sua benzedura.

“Osso quebrado… carne rendida…”

Ia falando suas palavras mágicas. E eu notei quando ela sorriu. Graças a Deus, não era nada grave!

O pé desinchou como que por encanto.

Eu até queria voltar ao jogo.

Os mais velhos… sábios… não deixaram.

Fiquei de castigo.

Ela voltou nos dois dias seguintes para me benzer de novo.

Logo estava tudo normal.

E eu fui até a ponte da avenida Marginal, jogar o paninho bento de costas para a correnteza do Rio Tietê, que levou a minha dor embora.

Paguei a conta.

Peguei o remédio.

Saí da farmácia nova vendo a imagem de dona Arinda através da janela.

E corri para atravessar a rua, porque a chuva estava forte.

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