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Baseado em fatos reais: um Polanski que não faz jus

Postado por Gabriel Vasconcelos em 11/nov/2017

Roman Polanski

Duas mãos vermelhas sob fundo preto seguram uma caneta que jorra sangue. O cartaz do filme D’après une histoire vraie (Baseado em fatos reais, no Brasil) está por toda Paris.

Seria só mais um anúncio entre os tantos que infestam as ruas e as estações de metrô, não fosse uma pequena assinatura no pé da arte: “Um filme de Roman Polanski”, com o nome do diretor em um negrito envergonhado, ilegível do outro lado da rua.

É provável que a discrição se deva às suas cinco acusações de violência sexual contra  meninas menores de idade, a última feita no início de outubro pela atriz norte-americana Marianne Barnard. Em 1975, Polanski a teria fotografado nua na idade de 10 anos, em uma praia de Malibu, na Califórnia. Dois anos depois, como se sabe, foi detido em Los Angeles por ter drogado e estuprado Samantha Geimer, então com 13 anos, durante uma sessão de fotos para a revista Vogue. Fugiu para a França, de onde evita sair sob pena de ser extraditado para os EUA, onde o inquérito permanece aberto.

Os escândalos de Polanski são um dos assuntos favoritos da imprensa francesa. Não é para menos. Na esteira do empoderamento feminino, novas denúncias têm surgido e sua rejeição tem aumentado. Em cinco dias, mais de 28 mil pessoas assinaram uma petição contra a realização de retrospectiva de sua obra na Cinemateca Francesa. Ignorado o documento, duas ativistas do Femen invadiram uma sessão para protestar, enquanto o diretor apresentava seu último filme, razão de ser desta coluna.

Com o franco-polonês mais presente na mídia por sua ficha policial do que por seus filmes, fui ao cinema conferir o Polanski da vez. Se vejo com simpatia o boicote, ainda não consigo me privar da experiência de assistir ao novo trabalho do diretor de Cul de sac (1966), Chinatown (1974) e Repulsion (Repulsa ao sexo, de 1965) — cujo link vai ao final.

Baseado em fatos reais, tem roteiro adaptado de best-seller com o mesmo nome. No livro, que venceu o prêmio Renaudot de 2015 e sobre o qual só li resenhas, a escritora Delphine de Vigan escreve em primeira pessoa, enxertando episódios de sua vida em uma ficção perturbadora. Após o lançamento de seu último livro, a autora-personagem não consegue mais escrever, bloqueio alimentado pelo recebimento de cartas anônimas que a acusam de ter feito mal à sua família com a última publicação, um sucesso de vendas da editora Jean-Claude Lattès. Existente, a empresa é um dos muitos pontos de contato entre a história e o mundo real, muitos dos quais levados para as telas. No filme, por exemplo, a jornalista que entrevista a escritora em sua casa é Elizabeth Quin, famosa apresentadora do canal francês Arte.

Em meio à crise psicológica, surge a personagem L., levada para o filme como Elle em função da sonoridade. Muito sedutora, L. ganha a vida como ghost-writer, escrevendo artigos e autobiografias para celebridades. Fã de Delphine, aproxima-se rapidamente da escritora, logo se apoderando de sua rotina: agenda, e-mails, alimentação, tudo. A relação doentia logo descamba para a violência.

Ainda no cinema, fui alertado por uma amiga que me acompanhava sobre a semelhança do lançamento com o filme Misery (Louca Obsessão, 1990), de Rob Reiner. Também baseado em um livro, a obra narra a espiral de fanatismo da enfermeira Annie (Kathie Bates) pelo escritor Paul Sheldon (James Caan). De fato, a certa altura, Polanski encena um sonho de Delphine, em que a algoz lhe quebra a perna com um rolo de massa, tal qual a personagem de Kathie Bates faz com um martelo em Misery. Pela atuação, a atriz levou o Oscar de Melhor Atriz de 1991.

Curiosamente, e talvez pela natureza do papel, a atuação de Eva Green é marcante. Emmanuelle Seigner, a atriz principal, não fica atrás. Os insistentes — e belos — planos fechados nos rostos das atrizes favorecem suas expressões, mas bem poderiam complicar o desempenho se lhes faltasse desenvoltura. Outro ponto alto é a estética oferecida pela indústria a um de seus grandes nomes.

Nada disso, no entanto, compensa o roteiro fácil e pouco fluido que Polanski escreveu junto ao francês Olivier Assayas. Além do encadeamento de fatos a partir de sequências muito curtas e numerosas, que deixam pouco espaço ao drama psicológico prometido, a dupla o faz de maneira muito previsível, condenando a natureza do suspense. Sabemos, quase sempre, o que vai acontecer. Boa exceção é a sequência em que Delphine vai até o porão da casa na Campanha, já na segunda metade do filme. Aí, Polanski joga com as expectativas do espectador a partir de motivos, como a troca de olhar das personagens, o tempo e movimento de câmera. Por um par de minutos, sentimos aquilo que o filme poderia ter sido.

Além disso, a dupla oferece, incessantemente, pistas que reforçam a tese de que Elle é, na verdade, uma projeção da escritora, o que irrita um público mais atento em busca das próprias conclusões. A semelhança do cabelo, a transformação das roupas, a mesma bota, tudo ensina que se trata de uma só pessoa. Conclusão reforçada pelo fato de Elle nunca aparecer na presença de terceiros e por um outro tanto de situações.

Enfim, um filme que não marcará o cinema. Diferentemente do diretor octogenário, pelo bem ou pelo mal, sempre lembrado.

***

Baseado em fatos reais foi mostrado no Festival do Rio, em outubro, e só vai para os cinemas do Brasil em janeiro de 2018. Enquanto espera, assista ao bom Repulsion, de 1965, liberado com legendas em português no Youtube. Este terror psicológico de Polanski levou o Urso de Prata e o prêmio da imprensa no Festival de Berlim daquele ano, além do Bafta de 1966.

 

Assista aqui ao trailer de Baseado em fatos reais (2017):


Assista aqui ao clássico
Repulsa ao Sexo (1965):

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